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22 dezembro 2006

Uma Carta prometida...

É a única fotografia que tenho do Zé Matos enquanto aluno do nosso Liceu.
Foi obtida quando ele frequentava o 2ºano, numa excursão acompanhada pelo professor de Matemática, Dr.Salvador Ricardo da Costa. Corria o ano de 1965.
Cinco anos depois, já mais amadurecido, o Zé Matos escrevia a Carta que se segue.

José M de Matos

Em 12 de Outubro de 1970, o Setubalense apresentava uma Carta escrita por um aluno do 7º Ano do Liceu de seu nome José Matos.Dizia assim:


Carta Confidencial a uma Cidade que eu amo
Setúbal, 9 de Outubro de 1970

Não começo pelos habituais cumprimentos e desejos de boa saúde, que são apanágio das cartas vulgares, que se escrevem com uma determinada intenção, que ocupa pouco espaço, enquanto se divaga largamente pelos cumprimentos.

Não, não te escrevo para te cumprimentar nem para te desejar saúde, ainda que talvez o precisasses.


Eu queria agradecer-te Setúbal, a inteligência das coisas que me deste…”. Como deves ter reparado estou a parafrasear um dos meus poetas preferidos. Lá vens tu com a poesia, dir-me-ás.

Não, cidade, eu não quero falar-te de poesia, se bem que tu precises de compreender que a Poesia não significa andar a falar às avezinhas nem passear com os pés uns palmos acima do solo.

Se te falar de poetas, será dos que dizem que “Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio… e muito mais que se não diz por ser verdade… o Poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade: Abaixo o mistério Poesia”, Mas não só desses. Também dos que reconhecem que “ A lua não tem olhos” e requerem alguém “que vá pintar os olhos à lua”. E também de alguns mais simples que dizem apenas:”Eu amo as mulheres do meu País”.

Eu quero ir direito ao assunto, cidade amiga. Eu acho que tu és bem a imagem do nosso país emergentemente em vias de desenvolvimento. Tu representas bem o bicho disforme do subdesenvolvimento insatisfeito que se quer promover. tens o corpo cada vez mais crescido, talvez duma maneira não muito harmoniosa. Mas a cabeça, cidade! Precisas de ter também uma cabeça que seja bem feita exteriormente e com miolos lá dentro.

Tu vives em ti o drama de te sentires chamada a um “mais” e teres de viver mediocremente, porque o espírito ainda anda no ar e não sabe para fazer desenvolver harmoniosamente o corpo.

Mas eu queria agradecer-te qualquer coisa que não sei bem explicar. Eu sinto que foi em ti que eu tomei conta de certo número de problemas que se põem às pessoas do País nosso amado.

Nas tuas fábricas sente-se o progresso tecnológico que quer muito justamente introduzir-se na tua vida.

Mas logo uma pessoa vagueia pelos teus bairros de lata (ponto de reflexão para os leitores intrometidos desta carta que eu queria pessoal: Em Setúbal ainda há bairros de lata) e se dá conta que a riqueza ainda não é para todos e que o maior mal é a sub cultura da maior parte das tuas gentes.

Sabes uma coisa, Rainha do Sado? Gosto da tua beira-mar e das tuas praias, mas desgosta-me ver fábricas e indústrias na região com um rio muito liricamente turístico, e um porto vazio à espera de movimento. As pessoas complicadas que ambos conhecemos, chamaram à causa disto o Ad Valorem. Depois acabaram com ele e criaram uma outra coisa qualquer. Como diria a nossa amiga de brincadeira, a Mafalda: - Malditos burocratas!

Mas continuemos. Foi em ti que primeiramente me dei conta que também havia e há problemas no Ensino no nosso país. Eu não sabia que nome se dava a essas coisas. No entanto, eu e os meus colegas sentíamos que grande parte dos nossos condiscípulos vinham de fora estudar, porque não tinham o pão da cultura nos seus sítios.

Estamos sempre a aprender como vês. Na entrada para o liceu, eu e os meus colegas vimos que muitos dos que tinham sido nossos colegas na Instrução Primária não o eram agora, tendo uns deixado de estudar e outros ido para a Técnica. Chamaram a isso o Acesso à Cultura e a Necessidade de Democratização do Ensino.

E durante a vida de liceu aprendi muitas coisas para além das aulas. Com professores, colegas, etc. Como deves calcular, chegado a uma certa altura não pude ficar só a olhar para o mundo pequeno do liceu e do ensino. Desci a Av. Rodrigues Manito e vim à cidade. Eu e outros colegas. Fomos a sessões culturais aos jogos de futebol, às tuas praias, à beira-mar, aos teus subúrbios. Vimos e aprendemos. E disso não nos podemos olvidar.

Eu vi então que as tuas gentes não praticam muito desporto mas vivem para o seu Vitória Não os vi equipados, mas enchiam as bancadas, barafustavam e gritavam, extenuavam-se e escondiam-se atrás de um nome e de uma bandeira.

Desculpa, cidade, que to diga, mas eu gostava que as tuas pessoas fossem mais pessoas.
Durante toda esta experiência eu percebi que só participando se pode aprender. Ainda recentemente participei (embora pouco) no recenseamento dos teus fogos. Calhou-me uma das freguesias mais populosas e, deves reconhecê-lo, atrasadas – S.Sebastião.
“Nós andamos a fazer o recenseamento “. “Que raio de coisa é essa do recenseamento”? Em vez de 5 minutos demorava-se meia hora ou três quartos de hora. Ouvi então coisas que eu não suspeitava que as tuas gentes soubessem. Precisavam de contar a alguém as aspirações, necessidades e problemas que sentiam lá no fundo. Não os contavam às vizinhas, porque são rivais naquilo a que os ingleses chamam e tu sabe-lo bem “the struggle for life”.

Surgiram então as perguntas, que tiveram como resposta um Não perplexo e ao mesmo tempo interessado pelas propostas concretas que as pessoas faziam.

Vêm cá mandar a gente caiar as barracas?”, “Isto é para pôr água e luz?”, “Ai, não é para isso? Então já sei, é para pôr número nas portas e dar nome às ruas”.

As vivendas – barracas e as avenidas – azinhagas queriam coisas. Devem sentir-se mal, mesmo ao pé do Bairro da Caixa, como é conhecido, e cujo nome é Centro Residências Marcello Caetano.

Eu queria dizer-te mais coisas mas não me lembro. Podes ter a certeza que te amo. Melhor, amo as tuas pessoas e espero que elas cresçam e se tornem adultas. Tu podes fazer qualquer coisa por isso, e era a maior satisfação que davas a quem contigo aprender coisas belas, porque mesmo belas em si, ou belas pelos ensinamentos que contêm.

Adeus e até sempre.
José de Matos

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